Edição
Nº 5 | Data : 11/10/2006
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BEM-VINDO(A)
à Seção Artigos
Democracia
e controle do Judiciário
Por
Luís Carlos Lopes(*)
De acordo com o que se vê nas mídias e com o
que se ouve nas ruas, existem alguns consensos críticos
sobre o Poder Judiciário brasileiro. A Justiça
do País é uma instituição morosa
e isto significa que seus resultados, mesmo quando indiscutíveis
do ponto de vista moral, chegam tarde demais. Não raro,
depois da morte dos interessados ou em contextos muito diversos
do pleito inicial. Nas varas que aplicam o Código Civil,
o Penal e na Justiça do Trabalho (CLT) são comuns
prazos enormes para se concluírem questões simples.
Causas postas contra qualquer instância governamental
implicam esperar indefinidamente por ressarcimentos, sentenças
ou, mesmo, pelo cumprimento das mesmas. Não muito diferente
ocorre quando a luta é contra as empresas, fazendas
e seus proprietários. Pequenos davis enfrentam imensos
golias, raramente repetindo o mito bíblico.
Muitos
apontam, igualmente, privilégios e tratamentos diferenciados.
O mesmo crime ou acusação tem pesos distintos,
de acordo com a origem, cor e posição de classe
dos envolvidos. Por outro lado, a intrincada burocracia judicial
por vezes é rigorosa em demasia e, em outras situações,
muito branda, punindo, por exemplo, sem a severidade necessária,
os crimes gravíssimos contra a vida e a segurança
das pessoas. Existe até quem lembre que a pena máxima
real para quem matar alguém e puder pagar um bom advogado
é de até cinco anos. Este tempo é geralmente
cumprido em condições bem distintas das vividas
pelos 350 mil presos brasileiros do momento, amontoados em
presídios, depósitos e delegacias que mais parecem
pedaços do inferno. Existem críticas generalizadas
às leis e ao modo como são aplicadas. A Justiça,
apesar de ter discursos e argumentos próprios, também
tem cor, classe e preconceitos herdados de sua inserção
social.
Nem sempre as pessoas podem compreender com o que estão
descontentes, porque a Justiça carrega seus próprios
segredos. A antiga instituição não tem
o menor interesse em esclarecer o que é do governo,
da sociedade, do juiz e o que é da lei, beneficiando-se
do desconhecimento público. Precisar da Justiça
pode ser um tormento, mesmo que não se tenha culpa
e que se espere apenas que a lei seja cumprida. Se alguém
perde algum direito, não é incomum ser lembrado
na Justiça que outros foram mantidos, mesmo que menores.
Isto é dito exatamente por aqueles que deveriam trabalhar
para que os direitos humanos coletivos e individuais fossem
a prioridade das decisões dos tribunais. Pelo menos
em tese, é o que a doutrina afirma, com a pompa e a
galhardia dos juristas.
Em
várias situações, a expectativa positiva
dos atingidos é minada por decisões sinuosas
que protegem os mais espertos e trapaceadores, zombando dos
mais desprotegidos por serem corretos e, por vezes, ingênuos.
Na Justiça, vencem os que conseguem construir melhor
as suas provas. Como a Justiça é formalista,
vale quem é capaz de produzir artefatos, em pilhas
de papel, com melhor acuidade. Os outros perdem, porque a
questão de conteúdo é a que menos importa.
Julga-se por meio dos autos, nome dado aos processos, que
são calhamaços de papel, onde são juntados
cada vez mais papéis, assinaturas, carimbos e recibos.
Na Justiça brasileira, isto vale muito mais do que
as audiências e depoimentos. Destas sobram os registros
escritos, feitos de acordo com a visão e a vontade
dos juízes, promotores e advogados. As vozes das partes
são ecos secundários ouvidos com vários
filtros. Por vezes, parece que as partes são apenas
detalhes do aparato judicial formalista.
Muitas
vezes a Justiça funciona como um meio de comunicação
transversal à vida social. Na área de Família,
dentre outras, isto é recorrente. Casamentos falidos
terminam em disputas judiciais, que podem ser chamadas de
disputas do ódio, onde o amor foi pouco ou jamais existiu
de fato. Pessoas conservadoras, inconformadas com seus divórcios
e com o seguimento da vida afetiva dos seus parceiros, vingam-se
na Justiça das mais variadas formas. Usam da mesma
para comunicar ao outro seus ódios patéticos
e suas infinitas capacidades de intrigar e de mentir. A Justiça,
no seu formalismo habitual, aceita naturalmente estas situações,
igualando-as a outras, onde a questão é a sobrevivência
de filhos e outros dependentes. Os reais motivos dos seus
usuários não interessam. O que vale são
as provas, mesmo que sejam forjadas e baseadas nos preconceitos
sociais em vigor.
Muitos
juízes, com a ressalva dos que não se confundem
com isto, usam destas situações para exercitar
suas contradições e mediocridades. Julgam os
outros a partir dos seus preconceitos, esquecendo-se da lei
e das verdades sociais da modernidade. Há, neste contexto,
um espaço vicejante para alimentar o mal, sem resolver
intrincadas questões do tempo presente. O divórcio
é lei, mas na Justiça facilmente se é
punido indiretamente por praticá-lo. A tradição
diz que o casamento é eterno. A lei é nova e
o costume do divórcio também. A força
da tradição em uma cultura costuma ser poderosa.
O pior aspecto disto tudo consiste na mistura deliberada entre
o público e o privado, o que lembra as velhas práticas
medievais de onde a Justiça se origina. A instituição
judicial termina funcionando como uma espécie de fiadora
de costumes em crise e punidora dos que buscam viver livremente.
A verdade judicial, isto é, a que surge por meio de
despachos e sentenças não tem qualquer compromisso
com as verdades sociais, econômicas, políticas
e pessoais. Pode ou não haver sintonias. A verdade
judicial é a que emana dos autos. A verdade da vida
não é facilmente apreendida pelo papelório.
É certo que ela pode estar ali, no meio dos arquivos,
mas persiste de modo codificado, ininteligível e sem
qualquer efeito concreto nas decisões. O código
judicial formalista é o que prevalece, à espera
que a sociedade se rebele e exija profundas alterações
no modo de se conceber e operar a Justiça. Enquanto
isto não ocorrer, não há chance de modificar
estas coisas. Os membros do Poder Judiciário que são
conscientes e progressistas e tentam mudar este estado das
coisas, normalmente são pouco ouvidos e não
conseguem implantar alterações substantivas.
No máximo, conseguem adiar a vitória da conservação.
É verdade que já foi pior. Na época da
ditadura, o Poder Judiciário foi amordaçado
e os juízes foram controlados por meio de ameaças
e punições. Alguns, democratas incontestes,
chegaram a ser demitidos, obrigados a se aposentar, calar-se
etc. O Poder Judiciário era, na época, visto
com suspeita pelo Poder Central. Para seus detentores, os
bons juízes eram os que aceitavam o poder de plantão
e colaboravam com o regime. Não foram poucos os que
o fizeram. Muitos ainda estão por aí. A questão
foi esquecida, como muitas outras deste imenso País.
A ditadura acabou e estamos em pleno estado de direito. Os
juízes julgam de acordo com suas consciências.
O parlamento livremente faz e refaz as leis do País.
Pelo menos formalmente é assim que as coisas se processam.
Será?
Volta e meia vem à tona a questão do controle
externo do judiciário. Quando ela ressurge, a polêmica
se instala e a vetusta instituição diz ser desnecessário.
Afinal, a Justiça já tem várias instâncias
reguladoras, por que mais uma e, ainda por cima, externa?
Os juízes juram que não são corporativos,
que suas decisões, no contexto democrático,
são tomadas de acordo com a lei. Devolvem o problema
ao Congresso, ao Poder Executivo ou a quem estiver por perto.
Comumente, dizem que o problema remete-se ao atraso do País,
que não aceita suas leis e a ordenação
proposta pelo Judiciário. Rapidamente, a questão
é abafada, para voltar mais à frente.
Uma antiga técnica retórica é a de falar
de outros problemas, também reais, para que não
se argumente sobre questões mais específicas.
Respondem-se dúvidas com outras dúvidas, deslocando-se
qualquer possibilidade de entendimento e, sobretudo, de mudanças.
Logicamente, os problemas da Justiça não são
os únicos do País e certamente não são
os mais importantes. Todavia, estes são problemas que
fazem parte do todo, merecendo ser apreciados e compreendidos
em suas especificidades e múltiplas dimensões.
No cipoal de contradições do Sistema Judiciário
brasileiro amontoam-se quilômetros e quilômetros
de papel, revelando duas crises que correm paralelas. A primeira
e mais importante é o aumento incontrolável
dos usuários da Justiça. A segunda refere-se
aos métodos de trabalho que se mantêm quase intocados,
desde a época colonial. A chegada dos recursos informáticos
pouco mudou. A burocracia judicial foi transferida em parte
para a tela dos computadores. Pode-se acompanhar o andamento
dos processos pela Internet. Mas, eles continuam sendo mais
ou menos a mesma coisa, na ritualística formal do Judiciário.
Existem poucas ações destinadas a fazer diminuir
o ritual e tornar os mecanismos mais ágeis e produtivos.
A Justiça é conservadora, bastando-se a si própria,
naturalizando facilmente os seus procedimentos.
Desde a Era Vargas, o número de usuários da
Justiça não parou de crescer. A quantidade de
processos no pós-ditadura cresceu geometricamente.
A maior parte dos arquivos do Judiciário guarda, principalmente,
a massa imensa de documentos produzidos nas últimas
décadas. A sociedade brasileira vem buscando na Justiça
a solução de inúmeros dos seus problemas.
Espera da Justiça melhores dias. Os juizados de pequenas
causas, recentemente criados, estão abarrotados de
milhares de causas. Cada vez mais que se criam atabalhoadamente
novas varas e novos fóruns, maior é o público
e maiores são os problemas. O contencioso de nossa
sociedade vem crescendo de modo incontrolável, parte
substantiva deste deságua nos tribunais. Faltam proposições
modernizadoras e ações políticas que
diminuam o contencioso social e tornem a Justiça mais
eficaz e democrática. A questão é se
isto é realmente possível em uma sociedade com
os nossos problemas.
Os elevados salários pagos aos mais altos cargos do
Poder Judiciário espantam muitos. Apesar dos atuais
limites estabelecidos em lei, é difícil imaginar
que alguém, mesmo que muito qualificado, ganhe tanto
assim, trabalhando como funcionário público.
Esta é mais uma das dimensões do problema. A
Justiça é bem paga, pelo menos, bem melhor do
que a maioria dos outros ramos do serviço público.
Um médico ou um professor, mesmo que sejam doutores
de fato e em fim da carreira pública, dificilmente
ganharão algum dia o salário de um desembargador.
Muitos julgam do alto, de uma posição muito
acima dos demais mortais. É fácil compreender
como se forma o espírito de corpo e se rejeita qualquer
mudança nesta realidade.
Inevitavelmente, a sociedade brasileira irá, mais cedo
ou mais tarde, conseguir o controle externo do Judiciário,
bem como de outras instâncias do Poder Público.
Isto é uma exigência política do aprofundamento
da democracia brasileira.
• Luís Carlos Lopes é
professor do Instituto de Artes e Comunicação
Social da Universidade Federal Fluminense (UFF).
• Obs: Pedido de reprodução de artigo
autorizado pelo autor em 08/10/2006.
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