ENTREVISTA
Terceiro
setor e o outro lado da moeda
(*) Por Claudia Zardo
Visto por alguns como “nicho de mercado” em plena
expansão, em 2001 o chamado “terceiro setor”
já somava 12 milhões de pessoas - incluindo
gestores, voluntários, doadores e beneficiários
-, além dos 45 milhões de jovens que vêem
como sua missão o ato de ajudar. De acordo com o IBGE,
existem no Brasil 276 mil organizações de sociedade
civil e interesse público.
É
fato, contudo, que em todas as camadas sociais existem pessoas
e entidades idôneas e inidôneas. Neste contexto,
muitas vezes aquilo que “parece ser, não é”.
Algumas ONGs do Terceiro Setor investem na construção
de uma imagem benevolente; empresas pegam carona nesta construção
imagética; mas na realidade, os meios servem para justificar
os seus fins, ou seja: fazem uso disso para obter lucros pessoais
e institucionais. Ao cidadão cabe o direito de ter
acesso a outras informações e pontos de vista
antagônicos para que, assim, possa discernir antes de
efetivamente ajudar ou se ver envolvido com e por tais organizações.
Visão
crítica
Edilson José Graciolli é professor de Sociologia
e Ciência Política do Departamento de Ciências
Sociais da Universidade Federal de Uberlândia; Doutor
em Ciências Sociais, Mestre em Sociologia e Bacharel
em Sociologia pela Unicamp. De acordo com ele, há os
que sustentam que as Organizações Não-Governamentais
(ONGs) ou as Organizações da Sociedade Civil
de Interesse Público (OSCIPs) constituiriam um suposto
“terceiro setor”. Para tais pesquisadores, o mercado
seria o primeiro setor, o Estado, o segundo setor e a sociedade
civil, o “terceiro setor”.
Segundo estudiosos dessa linha, o terceiro setor, no sentido
politicamente correto, é constituído por organizações
sem fins lucrativos e não-governamentais cujo objetivo
é gerar serviços de caráter público.
“O primeiro setor é o Governo, que é responsável
pelas questões sociais. O segundo setor é o
privado, responsável pelas questões individuais.
Com a falência do Estado, o setor privado começou
a ajudar nas questões sociais, através das inúmeras
instituições que compõem o chamado terceiro
setor”, explicam.
“Eu, na linha do que dizem outros autores, como Carlos
Montaño (autor do livro Terceiro setor e questão
social – crítica ao padrão emergente de
intervenção social), discordo dessa tese
de que a sociedade civil seja uma esfera à parte do
Estado e do mercado. Entendo que a sociedade civil inclui
o mercado, embora não se resuma a ele, e que Estado
e sociedade civil constituem a totalidade social capitalista”,
justifica Graciolli.
Por esta razão, para ele as ONGs, apesar de se auto-representarem
como “não-governamentais”, normalmente
são financiadas ou por subvenções do
Estado ou por empresas privadas, diretamente ou por meio dos
Institutos de Responsabilidade Social criados pelas empresas.
Dentro desta perspectiva, de fundo e crítica aos que
fazem a apologia do “terceiro setor”, é
que Graciolli responde a alguns questionamentos sobre o tema.
Quais
os meios que a população, antes de efetivamente
ajudar uma ONG, tem para verificar se ela é idônea
ou não?
E.J.G
- Considerando que as chamadas ONGs são parte da sociedade
em que vivemos, elas, de um lado, podem comportar visões
de mundo e práticas críticas à ordem
vigente, mas, de outra parte e na maioria das vezes, integram
a mesma lógica que destrói o meio ambiente e
gera pobreza, miséria, desemprego e exclusão
social. É preciso, portanto, se perguntar sobre os
vínculos reais que cada organização desse
tipo possui com classes ou frações de classes
sociais.
Qual
é a diferença entre marketing social e responsabilidade
social?
E.J.G
- A chamada responsabilidade social empresarial
é, em muitos casos, um mecanismo de marketing, no sentido
de certas empresas buscarem ampliar sua fatia de mercado com
esse discurso e essa prática. Mas o sentido mais profundo
da responsabilidade social empresarial está em outra
direção, a da elaboração e difusão
de valores e visões de mundo, tais como a de que o
mercado é definitivo e de que a questão social
deve ser enfrentada com políticas focalizadas (como
projetos pontuais), jamais se alterando as relações
sociais capitalistas (como a propriedade privada dos meios
de produção).
Como
uma empresa pode se beneficiar ao acoplar a sua imagem a uma
ONG?
E.J.G
- Um primeiro benefício é o da busca por novos
segmentos, ou nichos, de mercado no Brasil e no exterior.
É comum vermos empresas que destroem o meio ambiente
financiarem projetos de preservação ambiental.
Não há contradição nisso. A mesma
unidade produtiva que depreda recursos naturais tenta fixar
sua imagem como de uma organização que preserva
o meio ambiente. A propaganda, e não o conteúdo,
é a alma do negócio.
Quais
os benefícios (IR, imagem institucional etc.) que uma
empresa obtém ao coligar seu nome a uma ONG?
E.J.G
-
Organizações supostamente não-governamentais
obtêm isenção fiscal, subvenções
e, com isto, acabam cumprindo uma função no
atual contexto, que é o de um Estado que corta gastos
nas áreas sociais. O chamado “terceiro setor”
é, portanto, funcional às políticas neoliberais.
Há uma refilantropização no trato das
questões sociais.
(*) Jornalista