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A INSERCAO DO MARKETING NOS ESCRITORIOS DA
ADVOCACIA
Por Marco Antonio P. Gonçalves
O
marketing jurídico é uma vertente bastante especializada
do marketing de serviços profissionais, que está
começando a ganhar força no Brasil, onde existe
como atividade formal há uns cinco anos. É uma
atividade ainda muito recente e que tem um longo caminho pela
frente, principalmente se pensarmos que nos Estados Unidos
o marketing jurídico é trabalhado como atividade
formal há mais de vinte anos. A título de exemplo,
o ano de 2006 marcou o 20º aniversário da Legal
Marketing Association. A associação é
voltada para profissionais de marketing jurídico e,
apesar de a maioria dos membros serem norte-americanos, conta
com representantes de outros países, incluindo o Brasil.
Falando
em nosso País, sabemos que os escritórios brasileiros,
principalmente os de médio e grande porte, evoluíram
bastante em termos organizacionais ao longo das últimas
décadas, apresentando uma estrutura administrativa
cada vez mais complexa. Qualquer escritório nos dias
de hoje conta, em maior ou menor grau, com áreas administrativas,
tais como: finanças, recursos humanos e informática.
Em escritórios menores, essas atividades normalmente
são realizadas por terceirizados ou por um profissional
administrativo do tipo “faz tudo”.
Quem aparentemente
fica de lado é a atividade formal de marketing, ainda
pouco presente nos escritórios, assim como o debate
em torno de temas essenciais, como planejamento estratégico.
Outro advento, que ainda é raro, é a existência
do chamado administrador legal, um profissional que atua como
um CEO (chief executive officer), um superadministrador que
supervisiona toda a administração de um escritório
e que, em muitos casos, tem poder semelhante, ou superior,
ao dos sócios para assuntos administrativos, e muitas
vezes estratégicos, que ditam os rumos do escritório.
O marketing
jurídico representa algo novo e, nesse sentido, sua
adoção reflete uma mudança interna. E
mudanças, como sabemos, causam as mais variadas reações,
não necessariamente positivas, nas pessoas. Logo, o
marketing pode ser considerado um intruso nos escritórios,
quando existe, e, de maneira geral, tem uma atuação
periférica ao planejamento estratégico. E, para
não dizer que esta situação só
acontece no Brasil, ela pode ser observada mesmo em países
mais avançados no tema, como os Estados Unidos.
Os desafios
são muitos e existem, basicamente, porque o conceito
de marketing em um escritório vai de encontro ao status
quo dos advogados. A Advocacia atua hoje como há cem
anos e, de maneira geral, tem trazido resultados para muitos
advogados, estabelecendo-se como uma profissão honrosa,
estável e que garante, muitas vezes, mais do que a
mera sobrevivência, por que mudar? É realmente
necessário? O que esse marketing tem de tão
importante? Enfim, por que fazer marketing?
O “por que fazer marketing?” é um questionamento
interessante, pois, de uma forma ou de outra, e em maior ou
menor grau, os advogados fazem marketing. Sempre o fizeram,
só que de modo intuitivo, subliminar e totalmente desprovido
de qualquer planejamento ou coordenação. É
como a atividade de vendas, a palavra “proibida”
da Advocacia. Todos os advogados vendem, só que o fazem
de modo subliminar. O advento do marketing jurídico
pressupõe, simplesmente, que essas atividades deixem
de ser feitas de modo descentralizado e passem a ser formalmente
coordenadas por profissionais de marketing, ou mesmo advogados,
mais afeitos à disciplina. O importante é que
haja coordenação, de modo a se planejar e realizar
ações de marketing que tragam retorno para o
escritório. E tudo, é claro, sempre de acordo
com o Código de Ética e Disciplina da OAB e
o Provimento 94/2000.
Para que
o marketing seja bem-sucedido, com resultados concretos, é
preciso vencer as diversas barreiras existentes, que normalmente
remetem aos próprios advogados. Há um consenso
entre profissionais que atuam com marketing jurídico,
já bastante difundido, de que advogados, em termos
gerais:
1-
São individualistas, mesmo atuando em sociedade com
outros advogados;
2-Não gostam de ter que escutar não-advogados;
3-São avessos ao risco, requisito
essencial no mundo dos negócios;
4-Só fazem o que outros escritórios
já fizeram e tiveram sucesso;
5-Não têm formação
alguma na área de negócios;
6-Não têm foco nos clientes
que atendem;
7-Não entendem e não se interessam
em entender os negócios de seus clientes;
8-“Não têm tempo”
para atividades de marketing;
9-Não recebem incentivos para realizar
atividades de marketing.
Esses
e outros desafios podem ser sumarizados no grande desafio
que é o de envolver e efetivamente integrar os advogados
nas ações de marketing. Esse é o verdadeiro
desafio, a fronteira final para aqueles que trilham o caminho
do marketing jurídico, sejam eles profissionais de
marketing ou mesmo os próprios advogados. E o ponto
crucial é que, como vimos nos exemplos apontados, o
grande problema reside no fato de que advogados foram educados
para advogar e não para gerir negócios. E esse
é um paradoxo interessante, se pensarmos que a maioria
dos advogados trabalha em sociedade, formando de pequenos
a grandes escritórios, muitos deles com atuação
regional, nacional ou internacional.
A situação
se torna ainda mais complexa nos pequenos escritórios,
a maioria esmagadora dos que atuam no País. Por serem
menores, são estruturas compactas e dispõem
de menos recursos, o que nem sempre se traduz em áreas
administrativas formais. São escritórios pequenos,
mas que também precisam ser geridos, até porque,
se tudo correr bem, espera-se que eles cresçam. Somente
uma gestão planejada, calcada principalmente em ações
de marketing, garantirá um crescimento ordenado.
Enfim,
o caminho é longo, mas, nos escritórios onde
já é desenvolvido, o marketing jurídico
tem tudo para triunfar, mostrar novas direções
e ter a atuação estratégica que dele
se espera. O escritório que adota o marketing jurídico,
por meio de seus advogados, da contratação de
um profissional ou de uma consultoria, mostra que, apesar
de todas as barreiras existentes, está preocupado com
a dinâmica do mercado. A concorrência é
crescente, assim como o nível de exigência da
clientela. Portanto, o caminho é a diferenciação
pelo do marketing jurídico.
*
Marco Antonio P. Gonçalves é profissional de
marketing jurídico e autor do blog Marketing LEGAL
(www.marketinglegal.com.br), sobre marketing jurídico
e temas ligados à gestão de escritórios
de advocacia. Formado em Administração de Empresas
pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e pós-graduado
pela Fundação Getúlio Vargas, é
membro da Legal Marketing Association (LMA), da Association
of Legal Administrators (ALA) e do grupo de debates Marketing
Jurídico Brasil.