"Vossa
Excelência, data máxima venia, não adentrou
as entranhas meritórias doutrinárias e jurisprudenciais
acopladas na inicial, que caracterizam, hialinamente, o dano
sofrido."
Se
você não entendeu nada do que escutou, não
fique triste. A grande maioria da população
brasileira não entende o juridiquês, a linguagem
escrita por vários advogados, juízes e promotores
em petições e decisões judiciais. Essa
linguagem impenetrável e incompreensível é
apontada pela população como um dos elementos
que distancia a Justiça do cidadão. Esse é
um dos resultados de pesquisa da Associação
dos Magistrados Brasileiros - AMB. Para fazer o caminho oposto,
a AMB lançou, no ano passado, uma Campanha Nacional
pela Simplificação da Linguagem Jurídica.
A Vice-Presidente
da AMB, Andréa Pachá, explica que o primeiro
alvo da campanha foram os estudantes de Direito, por entender
que o juridiquês começa a ser aprendido nas faculdades.
Mais de 5 mil estudantes participaram de palestras com o Professor
Pasquali, que apresentou argumentos para trocar o juridiquês
por uma linguagem mais acessível. O segundo passo,
explica Andréa Pachá, consistiu na publicação
de um livro. Ela fala da importância da simplificação
da linguagem.
"Uma
pessoa que vem a um tribunal, que procura a Justiça
e que no final recebe uma sentença, quando lê
a sentença, ela tem que saber o que aconteceu, porque
é a vida dela que está ali. Então não
é raro a pessoa receber uma sentença e continuar
sem saber o que está acontecendo. É um trabalho
árduo, a gente sabe que estamos tentando mudar a cultura
jurídica, a cultura já cristalizada no País,
essa coisa latina, essa linguagem excessiva, mas a gente entende
que era preciso dar o primeiro passo."
Falamos
a sua língua, mas não entendemos seu sermão...
O Desembargador
Federal Tourinho Neto é juiz há quase 35 anos.
Em todo esse tempo, ele nunca usou linguagem difícil
em seus despachos, argumentando que a decisão do juiz
é destinada a todos, inclusive ao leigo. Mas Tourinho
Neto acha que ainda leva tempo para essa filosofia do juridiquês
acabar.
"Muitos
ainda escrevem com um dicionário ao lado, para procurar
as palavras mais difíceis, tem alguns que escrevem
assim. Porque eu acho que nem eles sabem o que significam
aquelas palavras. Então eles pegam o dicionário
e ficam vendo as palavras mais difíceis."
Tourinho
Neto diz que esse culto à prolixidade vem da universidade,
e lembra de um professor, quando era estudante de Direito,
que dava nota boa aos alunos que escrevessem mais, sem se
importar com o conteúdo.
"Eu
tive um professor que não lia as provas, ele ia pela
quantidade. Então os meninos escreviam partida de futebol,
cinema, tudo para fazer um volume grande para ele poder dar
nota boa. A universidade leva realmente o estudante a escrever
muito."
O Juiz
Tourinho Neto também critica os longos textos dos operadores
de Direito, destacando que já se deparou com uma decisão
de setecentas páginas. Ele diz que o juiz e o advogado
devem ir ao ponto central da questão, e não
fazer monografias das petições. Segundo o Desembargador,
esses longos textos chegam a atrapalhar o andamento da Justiça,
porque a extensa leitura atrasa essa e todas as outras decisões
que abarrotam a mesa dos juízes.
De
Brasília, Adriana Magalhães
Fonte: Rádio Câmara