Edição
Extra | Data : 08/11/2006
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inicial
BEM-VINDO(A)
à Seção Ponto de Vista
LEI MARIA PENHA
(*) Por Carmen Bruder
Desde
Freud, ficou muito claro que amor, agressão e conflito
são os elementos básicos da experiência
humana. Só pensando por aí é que podemos
entender por que o Brasil teve necessidade de editar uma “Lei
de Violência Doméstica e Familiar Contra a Mulher”.
Não
só o Brasil o fez. Outros países também
defendem suas mulheres através de sanções
penais; tanto mais necessárias quanto menos educado
for um povo. Por isso, em 2001, a Comissão Interamericana
de Direitos Humanos já havia responsabilizado o Brasil
por negligência e omissão em relação
à violência doméstica. Essa Lei, que vem
com atraso, nem por isso deixa de ser bem-vinda.
Também chamada de “Lei Maria da Penha”,
em homenagem a uma das vítimas do próprio marido,
que a baleou pelas costas, é nominalmente uma lei feminina.
É estranho pensarmos nisso, diante do princípio
da Justiça de que a lei deve ser igual para todos.
Mas, se todos não são iguais, a diferença
na aplicação da lei pode ser uma das formas
de torná-la mais justa. E, justamente, está
aí a diferença própria do feminino: sua
fragilidade.
Não se faz necessário dizer que as mulheres
apanham mais dentro de casa do que os homens; não que
alguns não apanhem, mas, mesmo assim, certo é
que, se são vítimas, é porque são
mais frágeis. Só que fragilidade aí não
quer dizer falta de força física, mas, mais
do que isso, a própria presença do elemento
feminino. Como quer Lacan, ser feminino é poder se
colocar no lugar do desejo do outro.
Essa possibilidade de ser feminino, ainda que não exclusiva
da mulher, quando se apresenta, faz dela vítima fácil
do homem, se pensamos o homem na posição de
quem se importa com satisfazer o próprio desejo. Está
aberto o caminho para todas as manifestações
do desejo, que têm em comum o mesmo fim: mostrar quem
é potente, quem é que manda aqui.
Parece muito bobo, mas, muitos dos depoimentos de mulheres
agredidas pelos maridos dizem a mesma coisa: “eu não
sei por que ele me bate; procuro fazer tudo que ele quer.”
Ou, então, pela via do chulo, quem é que já
não ouviu a célebre besteira: “mulher
é como bife, quanto mais apanha, mais macia fica”?
A união, verdadeiro casamento, entre amor e agressão,
já apontada por Freud, está na base da violência
doméstica. Não só da violência
física, mas, sobretudo, daquela que considero como
a que mais fere: a violência psíquica. A Lei,
sabiamente, não deixou de prevê-la, mas, digam-me,
como fazer prova dessa violência, que é tão
por debaixo dos panos? De todos os panos, inclusive o dos
lençóis. Sabe-se que 70% dos casos de estupro
são cometidos nas camas de casal. E nesse caso, o que
dizer ao delegado, ou ao juiz? E eles, serão capazes
de entender?
Aí me convenço de que essa “Lei Maria
da Penha” é mesmo feminina, frágil. Precisa
de algo mais, por si só não é suficiente
para dar um basta na violência. Ajuda, claro que ajuda,
mas precisa ser ajudada. Precisa crescer num campo de educação.
Educação que significa alfabetização
no domínio das letras e também dos sentimentos.
Aos meninos e meninas, respeito ao próximo é
o que precisa ser ensinado; pelos pais, pelas escolas, pelo
Estado. Não basta sancionar uma lei, é preciso
dar o exemplo. É colocar a punição na
cabeça de cada um e não na folha de papel. Só
quando as mulheres puderem entender que “fazer tudo
que ele quer não me livra da chibata” precisarão
menos da lei, pois poderão contar mais consigo próprias.
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